sexta-feira, setembro 03, 2021

Um dia na eternidade de Amadeu Baptista




 

    Revisitei agora alguns recantos da cidade onde nasci, através da leitura da poesia de Amadeu Baptista: «Um dia na eternidade».

    Tenho um sentimento contraditório em relação ao Porto, onde vivi com continuidade até aos dezoito anos. Sentimento do adolescente e do jovem adulto que percorria muitos dos lugares mencionados no livro deste poeta, mas também outros lugares dos rituais da minha iniciação, livrarias, como a Divulgação, o TEP, o Cineclube do Porto, o cinema Batalha, a Árvore, a galeria Alvarez, o café S. Lázaro e a Esbap…, para não ficar apenas circunscrito às sandes de presunto do Louro, à francesinha da Regaleira, aos tascos da Travessa dos Congregados, ao clima tedyboyesco à volta da Xai-Xai, ou aos bailaricos de garagem.

    Não tenho nenhuma saudade mórbida da cidade, mas mantenho uma certa dose de ternura pelo Porto, com família já quase toda desaparecida, e onde sobram ainda alguns amigos que conservo da infância e adolescência. Como me dizia um amigo que, tal como eu, deixou o Porto e se fixou em Lisboa «hoje era incapaz de viver no Porto». Ambos interiorizámos outros modelos, outro modo de estar e construímos família e amigos, ou seja, tudo o que torna impossível um regresso utópico ao granito húmido nesta fase da vida.


    A leitura de «Um dia na eternidade», levou-me a reler a cidade, mas também e a reler Amadeu Baptista onde reencontro a matriz da sua obra - a perda como ponto (ou porto, ou Porto) de partida para a interrogação sobre o enigma da poesia e da vida, os bons e os maus objectos da infância: «a ver o rio ao longe/e a lembrar-me do que foi a minha infância...», «mas era a língua de areia do cabedelo que me fascinava,/aquele surto de enigmas suspensos sob um céu sem refúgio». E isto a par do pormenor picturesco da dona adélia que «segurava na boca/uma multidão de alfinetes, que depois espetava/numa pequena almofada de veludo, todos em fila,/todos meticulosamente acomodados».

    Amadeu Baptista é sobredotado na sua agilidade poética, mas faz jus ao próprio labor, grande parte das vezes numa compulsão obsessiva da escrita no seu lado de poeta artífice «o poeta trabalha, mas não é o encarregado da obra,/ é antes serralheiro, estivador, escrivão das devassas,».

    O sentido da perda na sua poesia manifesta-se quase sempre através do afastamento/desaparecimento da mulher idealizada, que partiu: «por tanto te querer e não saber de ti./vou-me perder. o que queria era voltar ao número setenta/ e oito da rua monte dos judeus, voltar sessenta anos atrás,»

    No entanto, a memória do passado é motor de determinação e esperança na imagem que nos dá da poesia e da vida, «vem-nos tudo à memória, ainda que a ânsia/seja pelo que há-de ocorrer, por tudo o que sabemos perdido/ e queremos reencontrar neste caminho, em certo fio de água,/em certo campo aberto para que tudo se possa reconstruir a partir de nada,»

    De resto, o poeta Amadeu consegue interligar o espaço-Porto ao espaço-eu-poético, e a inquietação demonstrada ao longo das páginas mistura-se com uma cidade que para si perdeu referentes, embora conservando ainda os seus lugares emblemáticos, pois muita vida se conserva na cidade conservadora ao lado da cidade de Gaia, onde se continua, atravessando o rio, e onde Amadeu Baptista tem passado a maior parte da sua vida em interrogações que fazem lembrar questões levantadas por Manuel António Pina, que ele bem refere neste livro: «(MAP) Porquê a poesia/ e não outra coisa qualquer:/ a filosofia, o futebol, alguma mulher?»

    Ai da cidade que não queira ler este livro do Amadeu Baptista!

    Ai de quem não possa, através destes versos, confrontar-se com o seu passado - ou presente - onde se lê a identidade da pessoa e do velho burgo em imagens de uma grande intensidade: «quem sou nesta cidade? o que lhe devo para nunca me dar nada/ além dos respingos de luz que se levantam/sobre a pena ventosa, os caldeireiros, a sé?»

    São escassas as minhas palavras para falar da poesia dos outros. Socorro-me de uma selecção subjectiva de palavras e de versos, de momentos, de imagens, de acontecimentos. Felizmente não sou crítico encartado, aqueles a quem tantas vezes censuro por analisarem um livro quase só através de transcrições. No entanto não faz sentido omitir os últimos versos do livro «lembro-me, lembro-me. lembro-me de tudo, lembro-me de estar cansado / e de agora acabar o dia em que escrevi, completamente exausto,/esta eternidade.» Assim o

    poeta nos deixa com o peso da memória motora.

    E criativa.


    Transcrições, ou recortes, não são possíveis para escrever sobre a participação de Jorge Velhote neste livro, através do jogo a preto e branco das suas fotografias. Não, não se trata de um livro «turístico», não há fotos do Palácio nem da Rua Escura. Há a interioridade do poeta-fotógrafo motivado pela leitura e conhecimento da pessoa Amadeu. São «derivas pessoalíssimas», como lhes chamou. Não o conheço tão bem, como conheço o outro poeta, mas interagimos, estou atento à sua atitude perante a poesia e as imagens. Neste caso, a atenção já vem de trás, a primeira vez que o li o «fotógrafo» em versos foi precisamente numa belíssima antologia de poesia - «Ao Porto», (ed. D. Quixote, 2001) - onde também participei. Dizia ele que «as casas envelhecem junto ao rio» e fala de «O fim dos dias preguiçosos contando histórias pelos cafés». Lembra-me a cultura dos cafés do Porto e a passagem em que Amadeu Baptista fala com alta precisão dos cavalos da praça D. João I, em frente ao café Rialto onde tomava um pingo, ainda em garoto. Lembra-me a célebre fotografia do grupo de escritores do Café Diplomata (1981) que eu gostaria de ter integrado, mas nessa altura já tinha batido as asas para outros voos. Alguns figurantes aparentemente desvalorizaram a sua aparição naquele grupo escultórico fotografado, mas hoje sabem bem que não estiveram ali por acaso. Ao Jorge digo que os amigos dos meus amigos meus amigos são. E, entre muitos outros capturados nessa fotografia, lá está o Amadeu Baptista e o Mário Cláudio, cuja homenagem ao seu percurso literário foi comissariada, em 2019, pela entrega e competência do Jorge Velhote, na Cooperativa Árvore.

                   Aos dois poetas, o prazer do encontro 

                    e reencontro nas palavras e imagens.



                                               foto de Jorge Velhote

quarta-feira, maio 12, 2021

Estrada de Cinza,(Eufeme, 2021)



 

terça-feira, fevereiro 09, 2021

 

POEIRA ESCURA, de Amadeu Baptista, é uma espaço de luminosidade e lucidez poética, da sua vivência pessoal traduzida nos sonetos que trabalha como lenhador que escacha a madeira do poema. Este livro, afinal a metáfora que nasce logo no segundo verso «meto-me a lenhador na tarde densa» é o percurso continuado da realidade que constrói ao longo da sua obra. É o confronto com a realidade pandémica que nos envolve, pano de fundo deste livro, e que vai muito além das viroses e da poesia de circunstância. Porque não é fácil, nos dias de hoje, escrever negando a evidência, «este pretérito imperfeito que não se saberá como no futuro conjugar». E Amadeu não quer viver nas «águas negras e silêncio», como diz num verso. Esta poesia, apenas escura na aparência da poeira, mergulha no brilho da corrente contínua da sua obra, coerente e identitária: a denúncia do absurdo, da arbitrariedade que remonta à infância (evocação da ausência de Mãe, primeiro verso do livro).

POEIRA ESCURA é um exercício activo da solidão, onde todavia sobressai a crença de que «Tem de haver um momento em que a esperança/Volte e o terror se vença.»

Não sei porquê, veio-me à ideia um verso seu de 1985:

«A ave da luz na manhã incorrupta»

sábado, setembro 26, 2020

Clara em Castelo, a leitura de Liberto Cruz

 

C L A R A E M C A S T E L O




Sabendo que a poesia está na rua, António Ferra partiu afoitamente ao seu encontro. Mas não seguiu só. Enfiou na desprendida mochila diversas paletas, escolhidas árias e restritas frases, recolhidas todas elas, com ironia e feroz doçura, na toca do quotidiano. Daí a oposição entre duas linhas de conduta, que não chegam a enfrentar-se porque se completam, se contrariam e aparentemente se distanciam. Batidas em castelo as claras ora sobem ora baixam, mas nunca desiludem porque conservam uma textura sólida eivada de uma inquieta amargura, de uma lúcida visão das coisas e das gentes , que um humor sadio e pertinente procura atenuar como se necessário fosse.

Sintra, 26 de Setembro de 2020.

Liberto Cruz

quarta-feira, julho 08, 2020

Clara em Castelo lido por AMADEU BAPTISTA


Amadeu Baptista


Novo livro de António Ferra, ‘Clara em Castelo’, editado pela Douda Correria. Trata-se de um conjunto de poemas que reafirmam a pujança do autor, que, como os poemas do livro denotam, não abandonando a vertente satírica de livros anteriores, desta vez se amplia numa outra densidade poética, que, na minha opinião, se ergue através de um expressionismo corrosivo e corruptor. O quotidiano que se lê nesta obra está contagiada pelo vírus de uma doença visceral, que tudo contamina, inclusivamente a própria linguagem, fazendo, inclusive, da desconstrução da língua uma arma de leitura da nossa contemporaneidade e, diria, de merecido e devotado contra-ataque, exactamente como é de esperar de um poeta que não se rende, não se vende e não vacila. Uma tiragem de 50 exemplares mostra a que ponto caiu a actividade editorial deste país, que, no entanto, se obstina em fazer contínuas cedências ao que não merece difusão e muito menos publicação. Guardarei o meu exemplar religiosamente, sorte de quem teve acesso a esta pequena jóia, este pequeno, grande, doce veneno.

quinta-feira, junho 25, 2020

CLARA EM CASTELO







Escreve o Amadeu Baptista, poeta e amigo que muito admiro:

Novo livro de António Ferra, ‘Clara em Castelo’, editado pela Douda Correria. Trata-se de um conjunto de poemas que reafirmam a pujança do autor, que, como os poemas do livro denotam, não abandonando a vertente satírica de livros anteriores, desta vez se amplia numa outra densidade poética, que, na minha opinião, se ergue através de um expressionismo corrosivo e corruptor. O quotidiano que se lê nesta obra está contagiada pelo vírus de uma doença visceral, que tudo contamina, inclusivamente a própria linguagem, fazendo, inclusive, da desconstrução da língua uma arma de leitura da nossa contemporaneidade e, diria, de merecido e devotado contra-ataque, exactamente como é de esperar de um poeta que não se rende, não se vende e não vacila. Uma tiragem de 50 exemplares mostra a que ponto caiu a actividade editorial deste país, que, no entanto, se obstina em fazer contínuas cedências ao que não merece difusão e muito menos publicação. Guardarei o meu exemplar religiosamente, sorte de quem teve acesso a esta pequena jóia, este pequeno, grande, doce veneno.

quinta-feira, outubro 31, 2019

Periferias da Luz







É um incómodo tão grande a ausência de
flores, mesmo aquelas em que não reparamos, porque são
politicamente irrelevantes.
Pensando bem, é impossível encontrar lugar para
estacionar os automóveis de tantas habitações
a que chamavam fogos mesmo que não ardam.
Mas aquelas fachadas lisas, só com janelas planas, são
a angústia de existências bloqueadas,
a angústia de não ter espaço para existir e apenas sonhar
com rosas de jardim.
Não há zonas de varandas com sardinheiras pendentes
para aliviar o peso dos dias pagos a crédito.


quinta-feira, junho 20, 2019

BLUFF

Sobre estes bluffs da vida, clique-se aqui.



De toda a água me rio

Graziela precisava de uma certidão de emagrecimento, documento imprescindível para voar low cost. A senhora do balcão de atendimento sugeriu-lhe que fizesse tudo online, e que comesse apenas legumes, uma só peça de fruta, duas bolachas integrais e, sobretudo, que bebesse muita água, toda a água de um rio para perder o peso dos dias e das noites e para expelir na urina os abusos que sofria.
E que voltasse ao fim de cinco dias inúteis.


[- Já não faço nada online, é tudo bluff, desde que nasceu a minha filha deixei-me disso, nem mesmo sexo virtual, tenho medo de engravidar outra vez.]


terça-feira, outubro 23, 2018

JÁ PRÓXIMO DOS ANJOS


Posso até enumerar os nomes das personagens que encontrei neste percurso:

o gajo do copo com quem bebi vinho branco perto do Chile – Daniel Moreira Nunes
a miúda que ia sendo atropelada – Raquel Barros da Silva
o que tinha ido a Alverca ver a tia doente – Rafael Cruz Monteiro
a tia doente - Eulália Monterio de Sousa
a miúda gorda – Ana Maria Barbosa
o que podia muito bem ser avô dela – Armando Morais Ferreira
um dos que tinha a boca colada a outra – Gabriel Sá Henriques
a outra –Deolinda Cunha Lopes
o mecânico e bate-chapas – António Jorge Martins
a velha ligeiramente magra – Isabel Maria Castro
o que se envolveu com outro numa discussão no metro – Carlos Manuel Almeida
o outro – Joaquim Silvino Antunes


terça-feira, maio 09, 2017

Dos livros levanta-se um pássaro



Perdi um pedaço de terra 
com árvores milenares e rios à alegria.
Mas ainda não desisti da escalada da montanha
 com cordas de seda fina.

 Agarro-me às pedras, seguro-me às giestas,
 suspenso das nuvens pelas minhas mãos
 por onde ainda escorre o álcool da terra.

.....................................................................

A gasosa que eu bebia em miúdo
é que era boa,
cheia de gás e açúcar, a saber a limão.
Ali estava a natureza crua,
plena de sumo a transbordar de futuro.

Quando se abria a garrafa,
abria-se o mundo em bolhas de sol,
ficava frescura nos lábios sedentos de combates
sem precisar de punhais para vencer.

Ainda hoje posso fazer aquela festa
e dançar com uma coroa de flores na cabeça
como um rei de nada à beira mar.





quarta-feira, abril 13, 2016

Fugindo de Todos os Fogos


Publicado em Março de 2016.

São histórias em prosa poética, narrativas mais ou menos curtas

                                  Corrida de cão

Só quando regressei do medo das cobras e da noite sem estrelas é que reparei no cão. Nunca tinha visto um cão correr tanto, um rafeiro, como se fosse um galgo perseguindo uma pele de coelho puxada por uma máquina. Corria atrás de um carro, um Renault 5 TL, que devia ir mais ou menos a sessenta, o que não é muito. Mas para um cão é uma velocidade de Ferrari. Parece que o dono se tinha esquecido do animal, e aquele cãozito branco quase voava, com uma força interior que o fazia lutar assim até ao infinito para ter um carinho e um osso.
Ao longo da avenida, paravam pessoas para ver o espectáculo. Mas apenas durante uns segundos, pois a corrida louca passava num relâmpago. Só dei por isso, porque ia mesmo atrás do Renault e do cão, num Toyota de um gajo meu amigo do tempo da tropa, que parecia insensível à cena. Cheio de pena do bicho, desatei a roer as unhas da mão esquerda. Veio-me à cabeça uma lembrança de Moçambique, uma outra corrida, a de uma hiena malhada a perseguir um mabeco que acidentalmente se afastara do seu grupo.
Do rádio do carro saía um blue da Billie Holiday, cujo ritmo contrastava com a tal corrida louca. Entretanto começou a chover e o cão continuava a perseguir o carro, que abrandara numa passadeira. Logo a seguir, a chuva misturou-se com granizo, uma saraivada que fazia tambor do tejadilho, qual Billie Holiday, qual quê, só se ouvia o matraquear das pedras de água congelada.

O carro reduziu a velocidade com o granizo que começava a acumular-se nos passeios. E o cão, já sem forças, patinando repetidamente nas bolinhas de gelo, continuava ainda a correr atrás do carro, para depois cair e morrer exausto na maior corrida contra o abandono que vi neste mundo quando se perdem as matilhas.                                         

terça-feira, fevereiro 04, 2014

Retratos de Nós

              




segunda-feira, dezembro 23, 2013

Mon Oncle


Às sete horas, arrumava os livros de deves e haveres na secretária, cobria a máquina de escrever com uma capa de pergamoide e saía entre até-amanhãs e brejeirices de ocasião, sem contabilizar as beatas num cinzeiro esmaltado. 
Quando chegava à rua, olhava as montras acesas e distraía-se no recorte de certas árvores, numa memória de infância guardada em arca d’água.» 

(AF - adaptação de fragmento de «Bio grafia»)






Fotografia do meu tio João Oliveira, contabilista - guarda-livros, uma interessante designação - que faria hoje anos (não sei quantos). Além de meu grande amigo era uma figura notável, a quem passei a chamar o alegre Humphrey Bogart.

segunda-feira, abril 01, 2013


        mário                                                             a Mário Viegas

                                                                                  em 1 de Abril de 1996



estou ouvindo a tua voz, mário

aquela voz produzida numa estrada, tão clara

a voz que não deu tréguas ao mau gosto

ao impropério encenado


viegas exilado no tempo e no espaço

confiante no sorriso e no abraço

uma divisa ou galão

quando alferes apareceste numa tela

fardado a militar pelo poema


eu queria agradecer-te, mário

a inteligência das palavras que me deste

pobre rei dom joão sexto

que nem sequer no palco foi  neutral


na garganta  no olhar  no movimento controlado

espontânea e falsamente natural

é a coragem de dizer e ser desdito

por quem te viu alguma vez naquela sala

do púlpito falando a toda a gente

fazendo dos sons um grito rouco

sem o temor de ser o mau da fita


tu é que sabias, mário-mário,

que a força das palavras que usavas

dava vida à morte dos poetas

candidatos a essa eternidade

na lucidez excessiva dos teus gestos


tu é que sabias, mário.


António Ferra




domingo, setembro 16, 2012

Arte Poética de Amadeu Baptista



Ficam-nos sempre alguns versos na memória e até os dizemos de cor, prontos a serem reavivados, quando encontramos em leituras algum eco dessas marcas.

The Child is father of the Man;
I could wish my days to be
Bound each to each by natural piety.

                 William Wordsworth (1)

Foram estes que emergiram e ganharam forma renovada ao ler «Atlas das Circunstâncias» (2), de Amadeu Baptista, amigo poeta que sigo de perto.
Na escrita de Amadeu assinala-se, antes de mais, um contraste entre os momentos de maior robustez da escrita e a delicadeza que coloca noutros momentos, cheios de afecto e infâncias mais ou menos codificadas (3), onde também se convive com a intensidade do texto poético feito na carne e no sofrimento - os seus “antecedentes criminais” (4), que incluem também amargurada denúncia da crueldade do homem sobre o homem e da degradação social, que de onde a onde vai assinalando. Quase sempre com o pão e os cereais presentes, e recorrentes, numa sacralização dos direitos mais básicos e preciosos da vida: O pão não é só migalhas, mas a força/ que põem as mulheres a amassá-lo/ e a perícia com que os homens/ nos campos o amansam.

Neste livro, com trinta e quatro poemas, logo nos coloca perante aquela ideia poética que me fez lembrar Wordsworth: O homem é, antes de mais criança./Tem olhos para ver e sabe ouvir/tudo o que se agiganta sobre as casas,/ A chama da candeia sobre a mesa/.

E a criança prossegue ao longo do livro: Rolam-se as palavras sob a língua, como seixos, /nesse tempo de débeis redenções. De calções/e crostas nos joelhos uma criança/sopesa-lhe a leveza, e intensifica-as/.

Até que chega à adolescência, numa ruptura, É quando a adolescência dispara pelos campos/ e colhe das origens sentidos sacros,/ ou numa indefinição transitória marcada por versos como estes: É anfíbia a adolescência do poeta./ Distinguem-se-lhe no torax barbatanas/ dorsais e pulsam-lhe , na garganta , pequenas brânquias…/ o que me faz lembrar o filme «Waterworld» com Kevin Costner a protagonizar essa adaptação aquática.

Depois, neste atlas das circunstâncias, chega-se à idade adulta, onde a cinza preenche o farto cabelo de Amadeu poeta e pessoa: Há palavras com que a cinza delimita/ a idade adulta do poeta, a sua serpe,/ a sua cítara, a sua asma/ que só um banho lustral há-de calar/.

Antes de terminar o livro, há um regresso à evocação da infância: Eis que o poeta vê, entre roseiras/ um cão preto e, assim, de súbito, remonta/ à sua infância e á infância do poema, / O pretexto foi o medo infantil do cão preto, fantasmas que nos podem sempre acompanhar. Mas para mim, neste contexto, a infância é também uma imagem do conhecimento. Não apenas na apropriação ingénua dos românticos, inspirados em Rouseau. Tal como na loucura e no sonho não existem neste estádio amarras racionais suficientemente fortes para travar os fulgores mortais, no último poema, onde escreve ainda a infância é boa conselheira se instiga /a que se desoculte o abismo…/
« I could wish my days to be bound each to each by natural piety.», posso eu terminar, inspirado pelo percurso ao longo deste atlas.


(1) William Wordsworth, - Oxford University Press, Selected Poems (Poems referring to the period of childhood).

(2) Amadeu Baptista – Atlas das Circunstâncias, ed Lua de Marfim, Lisboa, Julho 2012.

(3) Amadeu Baptista - Açougue, ed &etc, Lisboa 2012. (v. poema «dois mil e oito»)

(4) Amadeu Baptista – Antecedentes Criminais, ed Quasi, V.N. Famalicão,2007.





segunda-feira, julho 09, 2012

Açougue de Amadeu Baptista


















Em 2008, foi publicado na Galiza, edição Espiral Maior, o livro Açougue, poemas de Amadeu Baptista. A obra tinha sido vencedora do prémio de poesia com o mesmo nome, Espiral Maior.

Açougue, é agora publicado em edição portuguesa pela &etc, que conta com outros títulos do autor, nomeadamente “Os selos da Lituânia” – prémio Edmundo Bettencourt (ex aequo), Funchal, 2008 - e “O Ano da Morte de José Saramago”.

O primeiro poema desta obra refere-se à data de nascimento de Amadeu, 1953, e por aí segue o livro, cada ano dando título ao respectivo poema, até 2012. A edição galega, claro, terminava em 2008, com um poema dedicado a Baptista-Bastos, onde se lê nos últimos versos

(…)

O que escrevo é só um tempo breve,

em que os mortos e os vivos se procuram

para que haja testemunho e não seja longa a espera

do fim que há em tudo. Ah, que quem venha

a seguir não esqueça o que é o norte,

e onde fica


Esta mesma composição inicia-se com os versos:

Sou um homem do norte e um homem do norte

continuarei a ser até que a morte me separe.

(…)

Mas o norte com que termina é ainda outro norte, um norte mais abrangente, no sentido de destino e de orientação. De resto, o livro contém um itinerário datado, onde as raízes de Amadeu são ostensivamente visíveis.
Nos poemas acrescentados à edição original, datados a partir de 2009, é de salientar a mesma dimensão cósmica, com o poema dedicado à memória Rogério Ribeiro, não inédito, publicado com o título «Constelação», num catálogo do pintor em 2007. Amadeu Baptista tem ligações significativas com a obra plástica de Rogério Ribeiro, com quem já publicara textos seus em «O som do vermelho».
Esta edição de Açougue – esse lugar de sonoridade árabe que vai de talho a matadouro - termina com 2012 : «a morte reclama-me a uma velocidade feroz», experiência vivida paralela a outras vivências que fazem de Miragaia ou Francelos lugares universais, onde também «nenhuma morte é legítima».



















quarta-feira, março 07, 2012

os abraços contexto funcionam como pretexto

terça-feira, fevereiro 28, 2012

o funcionamento de certa indústria













«O ministro da Economia visita esta tarde a Oliveira & Irmão (OLI), principal produtor europeu de autoclismos, que emprega 350 pessoas e fechou 2011 com uma facturação de 44,2 milhões de euros, 72% dos quais nas exportações.»
Esta notícia permitiu que um ministro entrasse neste blog com tradição ligada a tudo o que é autoclismo e ao seu funcionamento. Este termo determinou o nome do blog.

terça-feira, fevereiro 14, 2012

A precisão da crueldade


















O que me agrada na guilhotina que comprei é a precisão do corte. Mas o seu funcionamento não admite hesitações ao descer a alavanca, caso contrário as folhas de papel podem ficar mastigadas e tortas. É preciso decidir e actuar com firmeza, fazer descer a alavanca com energia para se ouvir aquela pancada seca, garantia de sucesso.
Agora o x-ato vai descansar de certos tipos de corte, imprecisos, com inveja da guilhotina que o suplantou em eficácia.
Foi essa eficácia que me fez perder a cabeça e andar por aí à procura da mais adequada com uma boa relação qualidade/preço.


PS - Intencionalmente não refiro a precisão da crueldade noutras guilhotinas.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

pequeno tratado de gramática



















Para entender um povo é preciso entender-lhe a gramática, ver como ele trata a substância, de que cores a pinta, o que faz com ela quando o sol nasce e quando a noite vem. Nos dias frios, nas noites sonâmbulas.
Em que fase da lua se opera a sintaxe da oferta das flores a quem se ama?

A gramática é a regulação da vida, é o exercício do poder.
A gramática são as normas instituídas pelo estado que determina comportamentos previsíveis.

Para entender um povo é preciso descrever o modo como conjuga os verbos, se é perdulário no uso das mais ínfimas partículas de ligação ou se armazena intenções no corpo das palavras – articulações de nomes, parentescos e pertenças, sofrimentos silenciados.


Mas sem desafiar e transgredir as normas não pode crescer e arar a terra com os movimentos ritmados que se diluem no futuro.





segunda-feira, dezembro 12, 2011

série Help, 1



















Imagem publicada em Amadeu Baptista . (série Help, 1)

sábado, novembro 26, 2011

certas hortas de Lisboa










clicar na imagem



O que encanta é a coexistência destes dois sinais no passeio pelas hortas, em frente do megalito. A Câmara de Lisboa proporcionou e ordenou o espaço das duas culturas, com a couve galega a rir-se do consumismo, numa aproximação tardia, mas sempre a tempo, a tornar realidade sonhos antigos de Gonçalo ao lado de projectos de Belmiro.

Duvido que esta zona seja periférica A beleza e o sabor da tranquilidade em manhã de sol vivem nesta incerteza.

terça-feira, novembro 01, 2011

o porquinho e as salsichas



Muita gente quer a vida assim, com esta ligeireza, com um processamento rápido que se substitui à maturidade. É esta ganância imediatista que nos trama.


E na literatura é a mesma coisa, sem ao menos um tempinho no fumeiro.

domingo, outubro 30, 2011

ainda a propósito, funciona sempre














fotografia de Fernando Lemos

(...)

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para ó meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

(Feira Cabisbaixa)

quinta-feira, setembro 22, 2011

RUI LAGE: Um arraial de poesia num Portugal profundo













JÁ PASSOU A PROCISSÃO

Descamam as telhas sob o sol
punitivo, zunem fios de alta tensão,
a pele do empedrado tremeluz
(pois é lá que tudo ondula).

No pátio salivam mangueiras
de abraço constritor, a canícula
ferve cascas de melancia, brilham
botijas de gás no xisto mendicante.

Nas escadas alinhados
quais peças de artilharia,
um por degrau refulgem,
entre os versos,
os instrumentos da filarmónica.

No ouro da tuba cabe o reflexo
do velho cão de companhia,
a gata reluz tubular
na esguia prata do clarinete.

Depostas sobre a toalha
as boinas brasonadas
e de húmidos círculos estampado
o sovaco das camisas,
oponíveis polegares calejam
copos de tinto em formatura

e não te é dada permissão
para vestires blusa mais fresca,
não venha teu seio chamar-se
um figo sobre a mesa.

(Um Arraial Português, 2011)




Aqui está um funcionamento de certas sátiras que se oneilam para bem e ainda bem.

quarta-feira, setembro 07, 2011

Camilo Castelo Branco mandado às urtigas





funcionamento da exclusão do escritor dos programas do ensino secundário:

Terá sido pelos amores e perdições? Terá sido pela universalidade? Terá sido pela incapacidade de escolher as suas obras, contextualizando-as e caracterizando um passado histórico que nos antecede e enforma?




(...)
O leitor urbano mal imagina como são estes pais e maridos rurais quando lhes morrem as filhas ou as mulheres. Os mais lúgubres, se estão seis horas no forçado jejum a que os obriga a funeral lareira apagada, começam a cair num sentimentalismo de burros com fome. Nunca vi uma lágrima luzir nestas caras. Às vezes, morrem mães que deixaram um grupo de crianças ali a chorar num canto da cozinha. Os viúvos olham para os pequeninos de través, e ralham-lhes brutalmente. A estupidez é mais valente que a morte. Se falta a luz que adelgaça e rompe a treva do homem bárbaro, à mistura com a velhacaria que a civilização lhe tem dado, o cérebro e o coração são umas empadas de massa inerte, umas substâncias granulosas ou fibrosas contidas em sacos membranosos. Não há nada mais bestial que o homem sem a alma que se faz na educação. (...)



"Maria Moisés", Novelas do Minho


(crédito de imagem da cadeira de CCB - cercarte.blogspot.com)


segunda-feira, agosto 08, 2011

poetas: o seu a seu dono














A salvação da rima


pior guardar os livros que os ler
melhor abrir as alas que as ter
e só alar as cabras ao nascer

comem jornal, película de filme,
entrelaçam histórias de roer
cabras satíricas fartas de foder

as palavras, sempre as mesmas
organizadas de maneira diferente
nos livros abertos de repente

e todavia as páginas, os versos
corridos por não serem guarnecidos
por peles que os cornos e o cu tecem

acentos e verbos que aborrecem
quem se fartou de ler títulos soltos
nas metáforas jogadas a granel

na noite silenciosa sem chover,
ruídos a roçar versos na pele
com sílabas amarradas ao poder

de rimar por distracção ou desfastio,
fazendo de conta que são leis
prolongando fim sonoro nos papéis

no jogo do encontrão a tapar página
tapas de melão a cobrir vinho
e garrafas vazias no caminho

mas o que salva tudo é uma lágrima
nos ataques de solidão servida fria
com a televisão acesa todo o dia



Jogar é preciso


Sem grandes inquietações
nos livros que nunca lê,
sem angústias pr’a jantar
mija sem saber porquê


regista o totoloto
para ganhar a esperança
de pagar contas de gás,
e lê no tarot a vitória
de um gajo que é incapaz
de adivinhar o futuro
numa data de cerveja

numa conversa de chacha
de pasmaceira ao relento
não diz coisa que se veja

Sem grandes inquietações
na noite desconsolada
sem angústias pr’a jantar
mija sem ser por nada





Estes meus poemas aparecem publicados na Revista "Foro das Letras" (da Associação Portuguesa de Escritores-Juristas) atribuídos a Fernando Guimarães, poeta e crítico que admiro. Ele não deve ter ficado muito satisfeito com este lapso na organização da antologia. Nem eu. O seu a seu dono. Como se não bastasse, em outro lapso da mesma revista, aparece a minha biografia atribuída a outro poeta.


Resumindo: limparam-me o nome, atribuíram os meus poemas a outro, e ainda a outro deram-lhe a minha nota biográfica.


domingo, abril 17, 2011

Há sempre uns que pisam os outros



















Montagem AF


O Facebook tem-se sobreposto ao Blogger. Aqui. Mas certas coisas funcionam assim.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

funcionamento do Ford T













“Two generations of Americans knew more about the Ford coil than the clitoris, about the planetary system of gears than the solar system of stars. With the Model T, part of the concept of private property disappeared. Pliers ceased to be privately owned and a tire pump belonged to the last man who had picked it up. Most of the babies of the period were conceived in Model T Fords and not a few were born in them.”

John Steinbeck, Cannery Row

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

sabotagem



















Movidos pela raiva, ódio e incompreensão de que uma nova época estava surgindo e que o tear de Jacquard era o prenúncio dessa era de automação, os inconformados tecelões franceses tentavam boicotar o trabalho de Jacquard e para tanto, jogavam seus tamancos de madeira nas máquinas em funcionamento de modo que engripavam e paralizavam as máquinas.
Os tamancos dos tecelões franceses eram chamados de “sabot” donde surgiu o termo “sabotagem” como indicativo de uma tentativa de destruir ou prejudicar o trabalho de outros.


(Transcrito de um site brasileiro de que agora já não me lembro)
Nota- Repare-se que o tear de Jacquard (1804) tem um sofisticado sistema de cartão perfurado, precursor do computador