Periferias da Luz
Como o próprio nome indica, este blog é uma reflexão sobre o funcionamento de certas coisas.
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Muita gente quer a vida assim, com esta ligeireza, com um processamento rápido que se substitui à maturidade. É esta ganância imediatista que nos trama.
E na literatura é a mesma coisa, sem ao menos um tempinho no fumeiro.





Meu reino por um cavalo* é um conjunto de vinte e um poemas elaborados a partir de versos de vinte e um poetas. Partindo de “Quero um cavalo de várias cores…”, de Reinaldo Ferreira, são glosados versos de outros poetas, Vitorino Nemésio, Natália Correia, Herberto Hélder, Miguel Torga, Assis Pacheco, Sophia de Melo Breyner, entre outros.
Os poemas, que permitem múltiplas abordagens para as várias idades do universo escolar, têm como objectivo familiarizar, desde muito cedo, os alunos leitores com grandes nomes da poesia portuguesa.
As excelentes ilustrações de Rui Castro criam uma complementaridade de autoria entre ilustração e texto. O livro contém ainda um conjunto de breves notas biográficas dos poetas, a partir das quais os leitores poderão explorar a sua curiosidade.
* título que reproduz as últimas palavras de Ricardo III, na respectiva peça de Shakespeare

(...)
Há uma zona em que o leito do rio está seco,
e vejo-te, Nuno, com a pá de madeira à procura
de crustáceos e moluscos, tens umas calças compridas,
estou eu de calções, e enchemos o olhar de búzios miúdos,
com espirais de madrepérola, reúne-se a magia ao real
e essa é a surpresa, poder no lodo descobrir centelhas
de diamante, e guardá-las nos bolsos
- dividimos o saque sob as copas das árvores, o que temos
retalha-se em ínfimos fragmentos, nem saque é, mas espólio
onde se incrustam feitiços, palavras, só palavras e resquícios de memória
sob a linha de guindastes na barra de Leixões,
os jacarandás em flor no horizonte,
a crista de clarabóias a sitiar a cidade,
acrescentando-a,
tomando o ar odores a baunilha e a hulha,
a sangue derramado,
a menarcas de mar
(...)
O difícil foi escolher uma passagem deste livro para colocar aqui no blog. Felizmente que não é um blog literário, é este bricabraque do costume. Tal como a apreciação de Nuno Dempster eu sou também suspeito a falar do livro, porque a infância do Amadeu tem muitos pontos e lugares coincidentes com os meus. Sobretudo na evocação de lugares, em que o livro é riquíssimo, com a cidade do Porto priveligiada. De resto, O Ano da Morte de José Saramago exibe uma vasta geografia, mostrando um país - entre muitas outras coisas - com o leitmotiv das lojas chinesas: Porto, com Alfândega, Cantareira, Lordelo, Foz (velha) Passeio Alegre, Cordoaria, Rua Escura, Miragaia, Guindais, Av. dos Aliados (com a menina nua) etc. e outras paragens, Viseu, naturalmente, pois ele aí tem morado, depois de passar por Lisboa (Tejo) e Almada e referências, algumas via Nuno Dempster, à Irlanda, à Guiné, e ainda à China, Singapura e Bruxelas, Berlim e Nova Iorque (Wall Street), Estocolmo, França, Áfricas... O mérito desta exterioridade localizada é ela apontar para a sua interioridade. Amadeu Baptista vai muito ao fundo de si e toca-nos profundamente. Comove. Porque, mais ou menos, estamos lá todos e porque aquelas particularidades são verdadeiramente universais. Eu continuava por aqui fora, mas vou parar, senão depois não sei como hei-de sair. O melhor é mesmo ler o livro, como dizem aqueles críticos que já não sabem mais o que hão-de dizer.
PS - Alguém sabe o que é o Doce da Teixeira e os rebuçados da Régua? Eu já comi os dois e agora apanhei-os como figurantes nesta valiosíssima obra de Amadeu Baptista.
E não falei dos capões, também mencionados no poema, porque isso poderia ser tomado como provocação.

É um modo de expressão, de um ver e um sentir próprios de uma época e de vários lugares. Liga-se com as brumas do Norte, por oposição à luminosidade rectilínea do Sul, com certo calor mediterrânico, onde mais facilmente se recortam os templos gregos e latinos.

O chamado jardim francês é também é conhecido como jardim clássico. É rígido e formal, traduz-se por um geometrismo e simetria perfeita. Anda por Versalhes, por Saint Germain-en-Laye e por muitos outros “châteaux”. São o domínio do homem sobre a natureza, o domínio da racionalidade sobre o crescimento espontâneo, são as Luzes enciclopédicas.
Os jardins e as correntes artísticas andaram sempre de mãos dadas. Sobretudo nas épocas em que eram confortáveis os maniqueísmos. Velhas “Artes Poéticas” associavam o poeta artífice - apolíneo - ao jardim francês, e o poeta inspirado - dionisíaco - ao jardim inglês.
Hoje as coisas são muito diferentes, devido às novas catalogações, e acatalogações, modernas e pós-modernas, onde o nature e o nurture se posiciona de outra maneira.
Talvez se possa dizer que o poeta transpirado é um jardineiro incansável na procura do verso, articulando várias formas de funcionar, articulando o que nasce de dentro com a cerca que delimita muitos jardins.
Nota - Esta mensagem surge na sequência da anterior, a propósito do título do livro* que me remete para estas reflexões. A riqueza de um título, como é o caso, aponta para o conteúdo - aquele jardim interior - ao mesmo tempo que evoca um universo onde se plantam inúmeros campos semânticos.
* Curso Intensivo de Jardinagem, de Margarida Ferra