quarta-feira, abril 13, 2016

Fugindo de Todos os Fogos


Publicado em Março de 2016.

São histórias em prosa poética, narrativas mais ou menos curtas

                                  Corrida de cão

Só quando regressei do medo das cobras e da noite sem estrelas é que reparei no cão. Nunca tinha visto um cão correr tanto, um rafeiro, como se fosse um galgo perseguindo uma pele de coelho puxada por uma máquina. Corria atrás de um carro, um Renault 5 TL, que devia ir mais ou menos a sessenta, o que não é muito. Mas para um cão é uma velocidade de Ferrari. Parece que o dono se tinha esquecido do animal, e aquele cãozito branco quase voava, com uma força interior que o fazia lutar assim até ao infinito para ter um carinho e um osso.
Ao longo da avenida, paravam pessoas para ver o espectáculo. Mas apenas durante uns segundos, pois a corrida louca passava num relâmpago. Só dei por isso, porque ia mesmo atrás do Renault e do cão, num Toyota de um gajo meu amigo do tempo da tropa, que parecia insensível à cena. Cheio de pena do bicho, desatei a roer as unhas da mão esquerda. Veio-me à cabeça uma lembrança de Moçambique, uma outra corrida, a de uma hiena malhada a perseguir um mabeco que acidentalmente se afastara do seu grupo.
Do rádio do carro saía um blue da Billie Holiday, cujo ritmo contrastava com a tal corrida louca. Entretanto começou a chover e o cão continuava a perseguir o carro, que abrandara numa passadeira. Logo a seguir, a chuva misturou-se com granizo, uma saraivada que fazia tambor do tejadilho, qual Billie Holiday, qual quê, só se ouvia o matraquear das pedras de água congelada.

O carro reduziu a velocidade com o granizo que começava a acumular-se nos passeios. E o cão, já sem forças, patinando repetidamente nas bolinhas de gelo, continuava ainda a correr atrás do carro, para depois cair e morrer exausto na maior corrida contra o abandono que vi neste mundo quando se perdem as matilhas.                                         

terça-feira, fevereiro 04, 2014

Retratos de Nós

              




segunda-feira, dezembro 23, 2013

Mon Oncle


Às sete horas, arrumava os livros de deves e haveres na secretária, cobria a máquina de escrever com uma capa de pergamoide e saía entre até-amanhãs e brejeirices de ocasião, sem contabilizar as beatas num cinzeiro esmaltado. 
Quando chegava à rua, olhava as montras acesas e distraía-se no recorte de certas árvores, numa memória de infância guardada em arca d’água.» 

(AF - adaptação de fragmento de «Bio grafia»)






Fotografia do meu tio João Oliveira, contabilista - guarda-livros, uma interessante designação - que faria hoje anos (não sei quantos). Além de meu grande amigo era uma figura notável, a quem passei a chamar o alegre Humphrey Bogart.

segunda-feira, abril 01, 2013


        mário                                                             a Mário Viegas

                                                                                  em 1 de Abril de 1996



estou ouvindo a tua voz, mário

aquela voz produzida numa estrada, tão clara

a voz que não deu tréguas ao mau gosto

ao impropério encenado


viegas exilado no tempo e no espaço

confiante no sorriso e no abraço

uma divisa ou galão

quando alferes apareceste numa tela

fardado a militar pelo poema


eu queria agradecer-te, mário

a inteligência das palavras que me deste

pobre rei dom joão sexto

que nem sequer no palco foi  neutral


na garganta  no olhar  no movimento controlado

espontânea e falsamente natural

é a coragem de dizer e ser desdito

por quem te viu alguma vez naquela sala

do púlpito falando a toda a gente

fazendo dos sons um grito rouco

sem o temor de ser o mau da fita


tu é que sabias, mário-mário,

que a força das palavras que usavas

dava vida à morte dos poetas

candidatos a essa eternidade

na lucidez excessiva dos teus gestos


tu é que sabias, mário.


António Ferra




domingo, setembro 16, 2012

Arte Poética de Amadeu Baptista



Ficam-nos sempre alguns versos na memória e até os dizemos de cor, prontos a serem reavivados, quando encontramos em leituras algum eco dessas marcas.

The Child is father of the Man;
I could wish my days to be
Bound each to each by natural piety.

                 William Wordsworth (1)

Foram estes que emergiram e ganharam forma renovada ao ler «Atlas das Circunstâncias» (2), de Amadeu Baptista, amigo poeta que sigo de perto.
Na escrita de Amadeu assinala-se, antes de mais, um contraste entre os momentos de maior robustez da escrita e a delicadeza que coloca noutros momentos, cheios de afecto e infâncias mais ou menos codificadas (3), onde também se convive com a intensidade do texto poético feito na carne e no sofrimento - os seus “antecedentes criminais” (4), que incluem também amargurada denúncia da crueldade do homem sobre o homem e da degradação social, que de onde a onde vai assinalando. Quase sempre com o pão e os cereais presentes, e recorrentes, numa sacralização dos direitos mais básicos e preciosos da vida: O pão não é só migalhas, mas a força/ que põem as mulheres a amassá-lo/ e a perícia com que os homens/ nos campos o amansam.

Neste livro, com trinta e quatro poemas, logo nos coloca perante aquela ideia poética que me fez lembrar Wordsworth: O homem é, antes de mais criança./Tem olhos para ver e sabe ouvir/tudo o que se agiganta sobre as casas,/ A chama da candeia sobre a mesa/.

E a criança prossegue ao longo do livro: Rolam-se as palavras sob a língua, como seixos, /nesse tempo de débeis redenções. De calções/e crostas nos joelhos uma criança/sopesa-lhe a leveza, e intensifica-as/.

Até que chega à adolescência, numa ruptura, É quando a adolescência dispara pelos campos/ e colhe das origens sentidos sacros,/ ou numa indefinição transitória marcada por versos como estes: É anfíbia a adolescência do poeta./ Distinguem-se-lhe no torax barbatanas/ dorsais e pulsam-lhe , na garganta , pequenas brânquias…/ o que me faz lembrar o filme «Waterworld» com Kevin Costner a protagonizar essa adaptação aquática.

Depois, neste atlas das circunstâncias, chega-se à idade adulta, onde a cinza preenche o farto cabelo de Amadeu poeta e pessoa: Há palavras com que a cinza delimita/ a idade adulta do poeta, a sua serpe,/ a sua cítara, a sua asma/ que só um banho lustral há-de calar/.

Antes de terminar o livro, há um regresso à evocação da infância: Eis que o poeta vê, entre roseiras/ um cão preto e, assim, de súbito, remonta/ à sua infância e á infância do poema, / O pretexto foi o medo infantil do cão preto, fantasmas que nos podem sempre acompanhar. Mas para mim, neste contexto, a infância é também uma imagem do conhecimento. Não apenas na apropriação ingénua dos românticos, inspirados em Rouseau. Tal como na loucura e no sonho não existem neste estádio amarras racionais suficientemente fortes para travar os fulgores mortais, no último poema, onde escreve ainda a infância é boa conselheira se instiga /a que se desoculte o abismo…/
« I could wish my days to be bound each to each by natural piety.», posso eu terminar, inspirado pelo percurso ao longo deste atlas.


(1) William Wordsworth, - Oxford University Press, Selected Poems (Poems referring to the period of childhood).

(2) Amadeu Baptista – Atlas das Circunstâncias, ed Lua de Marfim, Lisboa, Julho 2012.

(3) Amadeu Baptista - Açougue, ed &etc, Lisboa 2012. (v. poema «dois mil e oito»)

(4) Amadeu Baptista – Antecedentes Criminais, ed Quasi, V.N. Famalicão,2007.





segunda-feira, julho 09, 2012

Açougue de Amadeu Baptista


















Em 2008, foi publicado na Galiza, edição Espiral Maior, o livro Açougue, poemas de Amadeu Baptista. A obra tinha sido vencedora do prémio de poesia com o mesmo nome, Espiral Maior.

Açougue, é agora publicado em edição portuguesa pela &etc, que conta com outros títulos do autor, nomeadamente “Os selos da Lituânia” – prémio Edmundo Bettencourt (ex aequo), Funchal, 2008 - e “O Ano da Morte de José Saramago”.

O primeiro poema desta obra refere-se à data de nascimento de Amadeu, 1953, e por aí segue o livro, cada ano dando título ao respectivo poema, até 2012. A edição galega, claro, terminava em 2008, com um poema dedicado a Baptista-Bastos, onde se lê nos últimos versos

(…)

O que escrevo é só um tempo breve,

em que os mortos e os vivos se procuram

para que haja testemunho e não seja longa a espera

do fim que há em tudo. Ah, que quem venha

a seguir não esqueça o que é o norte,

e onde fica


Esta mesma composição inicia-se com os versos:

Sou um homem do norte e um homem do norte

continuarei a ser até que a morte me separe.

(…)

Mas o norte com que termina é ainda outro norte, um norte mais abrangente, no sentido de destino e de orientação. De resto, o livro contém um itinerário datado, onde as raízes de Amadeu são ostensivamente visíveis.
Nos poemas acrescentados à edição original, datados a partir de 2009, é de salientar a mesma dimensão cósmica, com o poema dedicado à memória Rogério Ribeiro, não inédito, publicado com o título «Constelação», num catálogo do pintor em 2007. Amadeu Baptista tem ligações significativas com a obra plástica de Rogério Ribeiro, com quem já publicara textos seus em «O som do vermelho».
Esta edição de Açougue – esse lugar de sonoridade árabe que vai de talho a matadouro - termina com 2012 : «a morte reclama-me a uma velocidade feroz», experiência vivida paralela a outras vivências que fazem de Miragaia ou Francelos lugares universais, onde também «nenhuma morte é legítima».



















quarta-feira, março 07, 2012

os abraços contexto funcionam como pretexto

terça-feira, fevereiro 28, 2012

o funcionamento de certa indústria













«O ministro da Economia visita esta tarde a Oliveira & Irmão (OLI), principal produtor europeu de autoclismos, que emprega 350 pessoas e fechou 2011 com uma facturação de 44,2 milhões de euros, 72% dos quais nas exportações.»
Esta notícia permitiu que um ministro entrasse neste blog com tradição ligada a tudo o que é autoclismo e ao seu funcionamento. Este termo determinou o nome do blog.

terça-feira, fevereiro 14, 2012

A precisão da crueldade


















O que me agrada na guilhotina que comprei é a precisão do corte. Mas o seu funcionamento não admite hesitações ao descer a alavanca, caso contrário as folhas de papel podem ficar mastigadas e tortas. É preciso decidir e actuar com firmeza, fazer descer a alavanca com energia para se ouvir aquela pancada seca, garantia de sucesso.
Agora o x-ato vai descansar de certos tipos de corte, imprecisos, com inveja da guilhotina que o suplantou em eficácia.
Foi essa eficácia que me fez perder a cabeça e andar por aí à procura da mais adequada com uma boa relação qualidade/preço.


PS - Intencionalmente não refiro a precisão da crueldade noutras guilhotinas.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

pequeno tratado de gramática



















Para entender um povo é preciso entender-lhe a gramática, ver como ele trata a substância, de que cores a pinta, o que faz com ela quando o sol nasce e quando a noite vem. Nos dias frios, nas noites sonâmbulas.
Em que fase da lua se opera a sintaxe da oferta das flores a quem se ama?

A gramática é a regulação da vida, é o exercício do poder.
A gramática são as normas instituídas pelo estado que determina comportamentos previsíveis.

Para entender um povo é preciso descrever o modo como conjuga os verbos, se é perdulário no uso das mais ínfimas partículas de ligação ou se armazena intenções no corpo das palavras – articulações de nomes, parentescos e pertenças, sofrimentos silenciados.


Mas sem desafiar e transgredir as normas não pode crescer e arar a terra com os movimentos ritmados que se diluem no futuro.





segunda-feira, dezembro 12, 2011

série Help, 1



















Imagem publicada em Amadeu Baptista . (série Help, 1)

sábado, novembro 26, 2011

certas hortas de Lisboa










clicar na imagem



O que encanta é a coexistência destes dois sinais no passeio pelas hortas, em frente do megalito. A Câmara de Lisboa proporcionou e ordenou o espaço das duas culturas, com a couve galega a rir-se do consumismo, numa aproximação tardia, mas sempre a tempo, a tornar realidade sonhos antigos de Gonçalo ao lado de projectos de Belmiro.

Duvido que esta zona seja periférica A beleza e o sabor da tranquilidade em manhã de sol vivem nesta incerteza.

terça-feira, novembro 01, 2011

o porquinho e as salsichas


video
Muita gente quer a vida assim, com esta ligeireza, com um processamento rápido que se substitui à maturidade. É esta ganância imediatista que nos trama.


E na literatura é a mesma coisa, sem ao menos um tempinho no fumeiro.

domingo, outubro 30, 2011

ainda a propósito, funciona sempre














fotografia de Fernando Lemos

(...)

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para ó meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

(Feira Cabisbaixa)

quinta-feira, setembro 22, 2011

RUI LAGE: Um arraial de poesia num Portugal profundo













JÁ PASSOU A PROCISSÃO

Descamam as telhas sob o sol
punitivo, zunem fios de alta tensão,
a pele do empedrado tremeluz
(pois é lá que tudo ondula).

No pátio salivam mangueiras
de abraço constritor, a canícula
ferve cascas de melancia, brilham
botijas de gás no xisto mendicante.

Nas escadas alinhados
quais peças de artilharia,
um por degrau refulgem,
entre os versos,
os instrumentos da filarmónica.

No ouro da tuba cabe o reflexo
do velho cão de companhia,
a gata reluz tubular
na esguia prata do clarinete.

Depostas sobre a toalha
as boinas brasonadas
e de húmidos círculos estampado
o sovaco das camisas,
oponíveis polegares calejam
copos de tinto em formatura

e não te é dada permissão
para vestires blusa mais fresca,
não venha teu seio chamar-se
um figo sobre a mesa.

(Um Arraial Português, 2011)




Aqui está um funcionamento de certas sátiras que se oneilam para bem e ainda bem.

quarta-feira, setembro 07, 2011

Camilo Castelo Branco mandado às urtigas





funcionamento da exclusão do escritor dos programas do ensino secundário:

Terá sido pelos amores e perdições? Terá sido pela universalidade? Terá sido pela incapacidade de escolher as suas obras, contextualizando-as e caracterizando um passado histórico que nos antecede e enforma?




(...)
O leitor urbano mal imagina como são estes pais e maridos rurais quando lhes morrem as filhas ou as mulheres. Os mais lúgubres, se estão seis horas no forçado jejum a que os obriga a funeral lareira apagada, começam a cair num sentimentalismo de burros com fome. Nunca vi uma lágrima luzir nestas caras. Às vezes, morrem mães que deixaram um grupo de crianças ali a chorar num canto da cozinha. Os viúvos olham para os pequeninos de través, e ralham-lhes brutalmente. A estupidez é mais valente que a morte. Se falta a luz que adelgaça e rompe a treva do homem bárbaro, à mistura com a velhacaria que a civilização lhe tem dado, o cérebro e o coração são umas empadas de massa inerte, umas substâncias granulosas ou fibrosas contidas em sacos membranosos. Não há nada mais bestial que o homem sem a alma que se faz na educação. (...)



"Maria Moisés", Novelas do Minho


(crédito de imagem da cadeira de CCB - cercarte.blogspot.com)


segunda-feira, agosto 08, 2011

poetas: o seu a seu dono














A salvação da rima


pior guardar os livros que os ler
melhor abrir as alas que as ter
e só alar as cabras ao nascer

comem jornal, película de filme,
entrelaçam histórias de roer
cabras satíricas fartas de foder

as palavras, sempre as mesmas
organizadas de maneira diferente
nos livros abertos de repente

e todavia as páginas, os versos
corridos por não serem guarnecidos
por peles que os cornos e o cu tecem

acentos e verbos que aborrecem
quem se fartou de ler títulos soltos
nas metáforas jogadas a granel

na noite silenciosa sem chover,
ruídos a roçar versos na pele
com sílabas amarradas ao poder

de rimar por distracção ou desfastio,
fazendo de conta que são leis
prolongando fim sonoro nos papéis

no jogo do encontrão a tapar página
tapas de melão a cobrir vinho
e garrafas vazias no caminho

mas o que salva tudo é uma lágrima
nos ataques de solidão servida fria
com a televisão acesa todo o dia



Jogar é preciso


Sem grandes inquietações
nos livros que nunca lê,
sem angústias pr’a jantar
mija sem saber porquê


regista o totoloto
para ganhar a esperança
de pagar contas de gás,
e lê no tarot a vitória
de um gajo que é incapaz
de adivinhar o futuro
numa data de cerveja

numa conversa de chacha
de pasmaceira ao relento
não diz coisa que se veja

Sem grandes inquietações
na noite desconsolada
sem angústias pr’a jantar
mija sem ser por nada





Estes meus poemas aparecem publicados na Revista "Foro das Letras" (da Associação Portuguesa de Escritores-Juristas) atribuídos a Fernando Guimarães, poeta e crítico que admiro. Ele não deve ter ficado muito satisfeito com este lapso na organização da antologia. Nem eu. O seu a seu dono. Como se não bastasse, em outro lapso da mesma revista, aparece a minha biografia atribuída a outro poeta.


Resumindo: limparam-me o nome, atribuíram os meus poemas a outro, e ainda a outro deram-lhe a minha nota biográfica.


domingo, abril 17, 2011

Há sempre uns que pisam os outros



















Montagem AF


O Facebook tem-se sobreposto ao Blogger. Aqui. Mas certas coisas funcionam assim.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

funcionamento do Ford T













“Two generations of Americans knew more about the Ford coil than the clitoris, about the planetary system of gears than the solar system of stars. With the Model T, part of the concept of private property disappeared. Pliers ceased to be privately owned and a tire pump belonged to the last man who had picked it up. Most of the babies of the period were conceived in Model T Fords and not a few were born in them.”

John Steinbeck, Cannery Row

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

sabotagem



















Movidos pela raiva, ódio e incompreensão de que uma nova época estava surgindo e que o tear de Jacquard era o prenúncio dessa era de automação, os inconformados tecelões franceses tentavam boicotar o trabalho de Jacquard e para tanto, jogavam seus tamancos de madeira nas máquinas em funcionamento de modo que engripavam e paralizavam as máquinas.
Os tamancos dos tecelões franceses eram chamados de “sabot” donde surgiu o termo “sabotagem” como indicativo de uma tentativa de destruir ou prejudicar o trabalho de outros.


(Transcrito de um site brasileiro de que agora já não me lembro)
Nota- Repare-se que o tear de Jacquard (1804) tem um sofisticado sistema de cartão perfurado, precursor do computador

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Meu Reino Por Um Cavalo


Meu Reino Por Um Cavalo

Meu reino por um cavalo* é um conjunto de vinte e um poemas elaborados a partir de versos de vinte e um poetas. Partindo de “Quero um cavalo de várias cores…”, de Reinaldo Ferreira, são glosados versos de outros poetas, Vitorino Nemésio, Natália Correia, Herberto Hélder, Miguel Torga, Assis Pacheco, Sophia de Melo Breyner, entre outros.

Os poemas, que permitem múltiplas abordagens para as várias idades do universo escolar, têm como objectivo familiarizar, desde muito cedo, os alunos leitores com grandes nomes da poesia portuguesa.

As excelentes ilustrações de Rui Castro criam uma complementaridade de autoria entre ilustração e texto. O livro contém ainda um conjunto de breves notas biográficas dos poetas, a partir das quais os leitores poderão explorar a sua curiosidade.

* título que reproduz as últimas palavras de Ricardo III, na respectiva peça de Shakespeare

sexta-feira, dezembro 17, 2010

elo de desligação

aqui foi referida a publicidade dos cashconverters.
E volto a ela porque a empresa prossegue no seu trabalho de comprar e vender coisas usadas.
Estou convencido que além desta aliança da imagem também lá deve estar o marido.
É ir lá perguntar. Depois agradecia que me dissesem qualquer coisa.




Esta aliança funciona como um elo de desligação.

terça-feira, novembro 16, 2010

Livro - artigo descontinuado

























Telefonei para uma editora do grupo Leya a pedir um determinado livro que não encontrava nas livrarias. Em vez de me responderem que o livro esava esgotado e não seria reeditado, disseram-me que esse livro era um artigo descontinuado.

sábado, outubro 09, 2010

o funcionamento dos lugares de Amadeu Baptista


















(...)


Há uma zona em que o leito do rio está seco,


e vejo-te, Nuno, com a pá de madeira à procura


de crustáceos e moluscos, tens umas calças compridas,


estou eu de calções, e enchemos o olhar de búzios miúdos,


com espirais de madrepérola, reúne-se a magia ao real


e essa é a surpresa, poder no lodo descobrir centelhas


de diamante, e guardá-las nos bolsos


- dividimos o saque sob as copas das árvores, o que temos


retalha-se em ínfimos fragmentos, nem saque é, mas espólio


onde se incrustam feitiços, palavras, só palavras e resquícios de memória


sob a linha de guindastes na barra de Leixões,


os jacarandás em flor no horizonte,


a crista de clarabóias a sitiar a cidade,


acrescentando-a,


tomando o ar odores a baunilha e a hulha,


a sangue derramado,


a menarcas de mar


(...)



O difícil foi escolher uma passagem deste livro para colocar aqui no blog. Felizmente que não é um blog literário, é este bricabraque do costume. Tal como a apreciação de Nuno Dempster eu sou também suspeito a falar do livro, porque a infância do Amadeu tem muitos pontos e lugares coincidentes com os meus. Sobretudo na evocação de lugares, em que o livro é riquíssimo, com a cidade do Porto priveligiada. De resto, O Ano da Morte de José Saramago exibe uma vasta geografia, mostrando um país - entre muitas outras coisas - com o leitmotiv das lojas chinesas: Porto, com Alfândega, Cantareira, Lordelo, Foz (velha) Passeio Alegre, Cordoaria, Rua Escura, Miragaia, Guindais, Av. dos Aliados (com a menina nua) etc. e outras paragens, Viseu, naturalmente, pois ele aí tem morado, depois de passar por Lisboa (Tejo) e Almada e referências, algumas via Nuno Dempster, à Irlanda, à Guiné, e ainda à China, Singapura e Bruxelas, Berlim e Nova Iorque (Wall Street), Estocolmo, França, Áfricas... O mérito desta exterioridade localizada é ela apontar para a sua interioridade. Amadeu Baptista vai muito ao fundo de si e toca-nos profundamente. Comove. Porque, mais ou menos, estamos lá todos e porque aquelas particularidades são verdadeiramente universais. Eu continuava por aqui fora, mas vou parar, senão depois não sei como hei-de sair. O melhor é mesmo ler o livro, como dizem aqueles críticos que já não sabem mais o que hão-de dizer.



PS - Alguém sabe o que é o Doce da Teixeira e os rebuçados da Régua? Eu já comi os dois e agora apanhei-os como figurantes nesta valiosíssima obra de Amadeu Baptista.

E não falei dos capões, também mencionados no poema, porque isso poderia ser tomado como provocação.

sábado, setembro 25, 2010

O poder de síntese anglo-saxónico















Imagem no London tube
Mind the gap
é «traduzido» no metro de Lisboa por
Atenção ao intervalo entre o cais e o combóio


quarta-feira, junho 16, 2010

Os jardins e a literatura
















O jardim inglês é romântico, por excelência. Na liberdade, no modo como aproveita a expressão natural dos elementos. O Jardim Inglês é uma revolução contra os padrões rígidos e simétricos de outros estilos. Valoriza a paisagem natural, com formas curvas e arredondadas, tanto no relevo como nos caminhos, integrando a água e os bosques, as árvores que choram ou escondem almas nocturnas.

É um modo de expressão, de um ver e um sentir próprios de uma época e de vários lugares. Liga-se com as brumas do Norte, por oposição à luminosidade rectilínea do Sul, com certo calor mediterrânico, onde mais facilmente se recortam os templos gregos e latinos.
















O chamado jardim francês é também é conhecido como jardim clássico. É rígido e formal, traduz-se por um geometrismo e simetria perfeita. Anda por Versalhes, por Saint Germain-en-Laye e por muitos outros “châteaux”. São o domínio do homem sobre a natureza, o domínio da racionalidade sobre o crescimento espontâneo, são as Luzes enciclopédicas.

Os jardins e as correntes artísticas andaram sempre de mãos dadas. Sobretudo nas épocas em que eram confortáveis os maniqueísmos. Velhas “Artes Poéticas” associavam o poeta artífice - apolíneo - ao jardim francês, e o poeta inspirado - dionisíaco - ao jardim inglês.



Hoje as coisas são muito diferentes, devido às novas catalogações, e acatalogações, modernas e pós-modernas, onde o nature e o nurture se posiciona de outra maneira.

Talvez se possa dizer que o poeta transpirado é um jardineiro incansável na procura do verso, articulando várias formas de funcionar, articulando o que nasce de dentro com a cerca que delimita muitos jardins.



Nota - Esta mensagem surge na sequência da anterior, a propósito do título do livro* que me remete para estas reflexões. A riqueza de um título, como é o caso, aponta para o conteúdo - aquele jardim interior - ao mesmo tempo que evoca um universo onde se plantam inúmeros campos semânticos.

* Curso Intensivo de Jardinagem, de Margarida Ferra

domingo, maio 23, 2010

o livro e a capa



















capa de Luís Henriques


«Qualquer coisa espelha uma outra qualquer,
dois telhados antes do rio»

Margarida Ferra
Curso Intensivo de Jardinagem

sábado, maio 22, 2010

FIMFA LX10

quarta-feira, maio 19, 2010

O Delphim















Ele é uma marioneta automanipulada.

O Delphim constrói a sua personagem e veste-se à sua maneira, porque sabe que assim é mais fácil interagir e contracenar com os bonecos que ele próprio constrói.

O Delphim usa uns suspensórios vermelhos como se fossem dois fios dos quais está suspenso (não é que ele também não seja manipulador, como somos todos um pouco, sobtretudo com os sentimentos)

O Delphim, às vezes, não se distingue dos bonecos que cria. Que sorte ele teve, quando, em miúdo, o pai o levou a ver os bonecos de Santo Aleixo! Aquilo ficou-lhe na cabeça e no coração. E mais tarde foi-se a eles. Mas se calhar nem era preciso ter visto aqueles bonecos, a bonecada acabaria por sair lá de dentro.

Acabei de ver a sua exposição na Escola Superior de Educação e fiquei cheio de vontade de falar com os bonecos, as suas extensões.

Ele está lá e fala com as pessoas, conta a história dos bonecos e das máscaras, de piolhos gigantes, cabeçudos e reis dorminhocos. Conta a história e as aventuras dos boncecos, como se fossem reais. E as histórias dos materiais, dos que utiliza e dos que já não há.



















Que não lhe faltem bolas de ping-pong e a pasta do papel que desempenha.

sexta-feira, maio 14, 2010

UMURO