o abate a frio

Estas eram as árvores que periodicamente frequentavam este blog. Davam sombra, traziam o canto de alguns pássaros urbanos, serviam de poleiro para certos melros. Observava-as regularmente, fotografava-as, via como mudavam, via nelas a minha própria mudança.

Observá-las diariamente era uma coisa boa, como me chegou a dizer a Sara. Nestes bancos, à sombra, se trocaram muitas palavras e afectos. Era uma nesga de verde num limite da cidade, onde qualquer Cesário, verde, deixava vir acima a não-cidade que lhe ia por dentro.
Hoje abateram-nas.
Porquê, porquê?
Razões de segurança, devido às raízes que levantavam a calçada calcária, penetração insurrecta dos choupos nas profundezas das casas.
E eu que me lixe.
O que me impressionou, também, foi a frieza do encarregado do abate. Que sim senhor, era a Câmara a mandar, plantavam-se outras, era só esperar mais trinta anos, o choupo não prestava para aqui.
E eu a fazer contas, a ver se ainda ia viver mais trinta anos.
Ou a contar os dias com árvores, ainda.


6 Comentários:
As casas e os passeios crescem depressa. As árvores não. É certo que ás vezes as malandras não gostam de betão, ao contrário dos extraordinários técnicos camarários que se pudessem betonizavam o mundo inteiro.
Saudações ultraperiféricas.
Porquê espantarmo-nos com os técnicos (funcionários) camarários que usam o serrote e não reagem ao que lhes é perguntado, em vez de nos espantarmos, isso sim, com os técnicos superiores, e universitários, do pelouro do urbanismo + do ambiente + dos jardins + , sobretudo, do responsável máximo, e primeiro, o presidente da autarquia, que tem sempre, e em tudo, a última palavra - ou não terá ??
Ou, cada município, é apenas um local que dá emprego a muita gente e a vários níveis de saberes e de responsabilidades, mas não dá, de facto, responsabilidade a nenhum nível ??
Uma vez assisti ao processo de abate de uma série de árvores e lembro-me de pensar que era como se estivesse assistir a uma espécie de mutilação da cidade, como se alguém estivesse a arrancar pedaços do corpo da cidade sem se preocupar muito com isso. É uma imagem muito feia. E a que fica depois ainda mais, como vemos na fotografia.
Betonizar, betonizar, betonizar. Dá lucro, lucro, lucro.
Triste país em que vivemos.
Se ao menos tivessem sido avisados, podiam sempre fazer com a Beatriz, de «A Beatriz e o Plátano», da Ilse Losa. Marcou a minha infância, a determinação da rapariga que passa à noite junto da árvore em frente à sua casa, a fim de evitar o seu abatimento no dia seguinte. E consegue.
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