segunda-feira, junho 20, 2005

Corta as coisas inúteis

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Inutilia truncat

Um meio braço pegando em um podão com a epígrafe – Inutilia truncat – será empresa da Arcádia, por ser este o instrumento com que os agricultores cortam das árvores os ramos secos e viciosos; (... )

do Capítulo II dos Estatutos da Arcádia Lusitana, sec. XVIII



1. Há na atitude minimalista uma intenção explícita de denúncia da sociedade de consumo. Isto acontece desde fins dos anos cinquenta e princípios dos anos sessenta, quando aparecem artistas plásticos que utilizam objectos ou restos de coisas que a sociedade de consumo rejeita.

O minimalismo utiliza o essencial, não se perde em muitos acessórios. Tal como certas peças musicais que, nessa intencionalidade, foram construídas a partir de cinco notas apenas, sendo assim a matéria reduzida ao mínimo, tal como os escritores neoclássicos que acharam por bem limpar muita talha barroca da literatura. Sobretudo tralha barroca.
Alguns reuniram-se em academias, como a Arcádia Lusitana. No fundo estavam a imprimir um cunho fortemente racional à exuberância levada aos extremos. No entanto, e ao contrário daquilo que pode sugerir o Capitulo II dos estatutos daquela academia, a preocupação minimalista pode levar ao aproveitamento de um ramo seco. Ou de uma folha seca, porque se acha bela, porque se acredita que vale a pena aproveitar o que existe sem se consumir aquilo que foi feito para consumir-apenas.

2. Eu vivo na minha dualidade entre o minimal e o gosto por uma boa poesia de circunstância. Seja ela o’neillada, seja ela “Ao menino Jesus em metáfora doce” ou outros versos de Jerónimo Bahia, “A minha bela ingrata/ cabelo de ouro tem, fonte de prata, (...)”
Mas o corte das coisas inúteis imprime uma enorme disciplina interior. Enquanto estou a escrever este texto vigio-me, não me quero exceder, fujo das tricas que levaram à extinção da Arcádia, embora não resista em reflectir sobre a possibilidade de as alienantes touradas do século XVIII terem tirado a certo escol académico a disponibilidade para estes serões literários. Mesmo a justa causa do terramoto de 1755 também pode ter tirado clientela à tertúlia da Arcádia.

3. Sou, então, levado a pensar no uso discreto dos adjectivos, cobrindo de qualidade substâncias que às vezes valem por si próprias, sem adereços, ou na força dos verbos que nos levam.
Inutilia truncat - corta as coisas inúteis - tal como deito fora móveis velhos, manuscritos que tiveram o seu uso - bom proveito - roupa que já não me serve. Penso na determinação dos períodos curtos na prosa narrativa, um sinal de que alguém tem alguma coisa, de facto, para contar, sem precisar de se perder nas palavras tantas vezes inúteis.

Porque, às vezes, são inúteis as palavras.



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2 Comentários:

Às 7:20 PM , Blogger Ana Rute Cavaco disse...

gostei de aqui chegar.

 
Às 6:56 PM , Blogger jms disse...

Excelente texto.
Parabéns de um defensor acérrimo do minimalismo expressivo.

 

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