terça-feira, abril 24, 2007

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imagem de António Ferra

Dança de Salão (1)

1.
Pasarán más de mil años, muchos más, são palavras com música dentro, não precisam de mais nenhuma melodia além daquela que têm incorporada nas sílabas dos ás, na labialização de mil, na força lhes vem da escuridão de muchos. Pasarán más de mil años e depois pára-se. E logo a seguir reinicia-se a dança, muchos más, numa sala contornada por colunas que parecem limitar os passos, travar as voltas.
Eles estão bem calhados um para o outro, no movimento dos pés, na colagem dos corpos, na inclinação da cabeça dela sobre o ombro direito de José Maria, quando pasarán más de mil años, e quando ela o olha de baixo para cima, levantando o sorriso ao ouvir muchos más, até que um trompete electrónico lhes prolongue os passos e lhes humedeça as mãos, ta rá rá...
Já a noite vai ficando fria, lá fora, sem o calor sonoro e lento das pernas duras que se tocam, matinée de quase Inverno, tá rá rá. O que os preocupa talvez seja a eternidade. Mil anos, muchos más é um tempo tão absurdo que não teremos melodia que nos prolongue os passos por mil años, muchos más...

2.
José Maria pôs um anúncio no “Jornal de Notícias” como se estivesse a pedir namorada: cavalheiro de bom nível social, reformado da função pública, dá habitação a senhora de 70 a 80 anos, pela companhia e no futuro poderá ficar com todos os meus bens.*

Era um grito enorme contra a solidão que lhe roía os ossos. Já nada lhe valia a vista da gente que perfumava salas de baile. Isso apenas servia para lhe rodopiar a alma, que ele queria tranquila. Vai deixar tudo como herança, a quem o quiser, não importa a idade desde que respire, não importa por quanto tempo, desde que lhe aqueça as mãos e os pés.
Vestiu-se demoradamente para enganar o corpo, com tecidos bordados a nylon e polyester. Pouco depois saiu da sua casa cor-de-rosa, atravessou o pátio devagar, ao sabor do sono.
Dava habitação a quem o quisesse ouvir. Tão pouco, afinal. Esperava uma resposta, esperava uma senhora de setenta a oitenta anos que lhe lesse o jornal, que o olhasse, para ter a certeza de que estava a existir. Podia ficar com todos os seus bens, por quanto tempo? Pela eternidade adiante, o não-tempo, más de mil años, muchos más

3.
Um dia apareceu a senhora de setenta e cinco anos por ele contratada, cordialmente recebida, apalavrada e lenta. Ficou pela casa cor-de-rosa não se sabe por quanto tempo. José Maria queria permanecer vivo, no enigma de não ter família.
Mas depois tudo se inverteu, tudo mudou de cor. A senhora de setenta e cinco anos quis morrer primeiro para ter alguém que lhe pegasse na mão quando partisse. Deixou-lhe tudo o que tinha – um cobertor eléctrico, uma écharpe de seda roxa e um disco de vinil muito lúcido que ouvia aos fins de tarde num velho gira-discos: pasarán más de mil años, muchos más...


* Jornal de Notícias

(1) revisto e adapatado, publicado na Revista Mealibra, Dez. 2004



1 Comentários:

Às 8:41 PM , Blogger TsiWari disse...

Fabuloso, o texto.

Aterradora, a solidão.

Maravilhosa, a solução.

Terna, a volteface.


:) abraço

 

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