sábado, junho 11, 2005

autoclismo I

Um autoclismo é um aparelho que faz parte integrante de uma casa de banho. Vale a pena observá-lo por dentro com muita atenção e muita curiosidade. Trata-se de um aparelho que revela a inteligência da espécie humana, usando processos mecânico-hidráulicos.
Se lhe tirarmos a tampa, deparamos com uma caixa de água. É este o primeiro olhar. Lá dentro está um tubo, por onde entra água após a descarga feita. Depois, quando a água entra novamente para recarga, ela pára ao atingir certo nível, regulável, porque uma bóia de esferovite, empurrada pela impulsão da água que sobe no caixa do autoclismo, bloqueia o tubo por onde sai a água que circula na canalização geral. Funciona como uma torneira. A muito baixa densidade da esferovite é que permite uma oclusão rápida e eficaz. Antes da existência da esferovite as bóias eram caixas redondas e ocas, feitas de cobre. O braço de metal ou plástico ao qual se prende a bóia, o tal pedaço redondo ou paralelepipédico de esferovite ou plástico oco, pode ser regulável, como acima dizia. Fixado mais para baixo, entra menos água, porque a ejecção de água termina mais cedo. Se for fixado a um nível superior, ejecta água durante mais tempo, como é óbvio, aumentando assim o nível e o consumo. Neste caso existe sempre um mecanismo de regulação manual.
Uma palavra ainda sobre o processo de descarga: é feita por um orifício existente no fundo da caixa de água, de perímetro (secção) bastante superior ao orifício da entrada de água. Isso explica o tom mais grave e rápido da saída de água para limpeza da sanita, em contraste com o tom mais agudo e lento do reenchimento do autoclismo, mais lento do que a descarga, naturalmente, pelos motivos apontados. Sobre esse orifício (de entrada e saída de água) existe uma junta de borracha, presa ao êmbolo que tapa e destapa o orifício de saída de água. Quando essa junta se torna gasta pelo tempo e pelo uso, diz-se que o autoclismo fica a verter, a desperdiçar água, continuamente, para dentro da sanita.
Há pessoas que não observam estas pequenas coisas úteis a que estamos habituados e fazem parte do nosso quotidiano. E têm todo o direito. Mas às vezes é necessário interrogar o óbvio, a companhia diária dos objectos, feios por serem úteis, sem a utilidade dos versos. O que acabo de escrever não tem directamente a ver com a racionalização do consumo de água, senão até valia a pena dar relevo àquela história de um hotel que resolveu colocar um tijolo dentro de cada autoclismo. Como se tratava de um hotel de grandes dimensões, a poupança anual em água e respectivos custos foi notável, nem vale a pena fazer contas.

quinta-feira, abril 20, 2006

o autoclismo de Doncaster






















igreja de Saint Lawrence


É meu hábito ver os “referrals” no "sitemeter". A vantagem é que se encontram referências interessantes. Neste caso, e porque me interessa o funcionamneto de certas coisas, encontrei uma referência a um suposto inventor do autoclismo, um mecanismo simples que tem merecido a minha atenção e, provavelmete, estará na origem do nome deste blog.
Desta vez fui levado até Doncaster, pequena cidade que nunca visitei durante as minhas permanências em Shefield, que fica a poucos quilómetros, lá para o norte de Inglaterra.
A notícia é muto atrasada, mas vale a pena dar uma olhada à referida igreja, numa partilha de interesses autoclísmicos.


Autoclismo na igreja 2000-11-01

A pequena igreja de Saint Lawrence, nas proximidades de Doncaster, no Norte de Inglaterra, resolveu prestar homenagem a um dos filhos da terra, Thomas Crapper, que, no século XIX, inventou o autoclismo. Vai daí, decidiu encomendar um novo vitral, onde aparece uma sombra da célebre invenção de Crapper, que nasceu em 1836, na vizinha aldeia de Thorne, e emigrou para Londres, onde acabou por conhecer a glória. Segundo um dos criadores do vitral, a ideia de incluir uma sanita no desenho veio de um paroquiano.
Fonte JN

sexta-feira, julho 07, 2006

de novo o autoclismo


Photobucket - Video and Image Hosting


Faço aqui uma interrupção, para inserir uma imagem de um autoclismo. Afinal, o aparelho remete para os princípios deste blog, que começou com o funcionamento do autoclismo, tendo-se seguido alguma investigação nesta área.
Esta imagem foi retirada do blog Fixação Proibida (arquivo de Maio), a quem agradeço e felicito pela divulgação da street art.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

(nem) tudo tem a ver com tudo

Image hosted by Photobucket.com
natureza morta, foto trabalhada, A. F.2005

No mês passado, num hotel em Itália, descobri na casa de banho dum hotel, um autoclismo com certas características: imaginemos um daqueles que têm uma patilha no topo dum tubo inox colocado sobre a sanita, com cerca de 80 cm centímetros de altura; daqueles que descarregam com uma forte pressão, que fazem um barulho danado nessa descarga rápida. Só que, neste caso, não se via o tubo, que estava inserido no interior da parede, apenas se fazia o toque de descarga, pressionando um botão, sim, um botão que saía da parede. Como se isso não bastasse, a mais de dois metros de altura estava o respectivo depósito, como um vulgar autoclismo tradicional de puxar a pega pendente por uma corrente.
Quando tudo sobre autoclismos me parecia resolvido, eis que surge este. Há objectos que tem múltiplas utilidades, como é o caso. Este, tal como um manequim, serve como suporte projectivo para reflectir sobre a funcionalidade e o funcionamento de certas coisas. Como na vida em geral: às vezes parece que tudo está resolvido, porque compreendemos os mecanismos, mas uma velha questão vem à superfície, não resolvida, afinal.
Tentei fotografar este aparelho, mas não foi possível, devido à distância entre o tubo e o depósito. Só se fotografasse as duas partes separadamente, o que não me interessava. Por isso, achei por bem colocar esta imagem da fruta, que não tem nada a ver com o tema.
Porque (nem) tudo parece ter a ver com tudo, tal como as partes distintas deste autoclismo, que, no entanto, fazem parte do mesmo corpo.

segunda-feira, julho 18, 2005

autoclismos IV

Image hosted by Photobucket.com
colagem de A. Ferra

A água é tramada



(ainda os autoclismos de inseridos no interior da parede.)

Depois que mudei de casa houve uma ruptura na canalização. Foi necessário substituir um tubo e o senhor Pedro G veio fazer esse trabalho de responsabilidade. Ele tinha mesmo um aparelho da “Bosh”, um detector de metal, para localizar o percurso dos canos. O Carlos - outro canalizador que eu conheci - não seria capaz de um trabalho desta envergadura, só no tempo do pai, canalizador também, ele poderia fazer executar tal tarefa, e como ajudante.
O senhor Pedro G, mostrou-se admirado de um autoclismo inserido na parede estar a funcionar tão bem. «É que estes avariam muito», dizia-me ele. Eu não lhe disse nada, mas ainda estava muito presente a mão habilidosa do Carlos que o tinha reparado de forma magnífica, havia quase dois meses. O senhor Pedro G., por sua vez, também me fez algumas revelações que merecem ser registadas. Se merecem credibilidade ou não, desconheço, mas fazem sentido: «o problema com estes autoclismos é a falta de peças, foram criados pela fábrica “Lusalite” que fechou depois do 25 de Abril». Aí é que parecia residir o problema das reparações, tarefa complicada. Só a capacidade do Carlos a inventar e adaptar peças pôde dar conta deste recado. E também um profundo “know how” sobre o funcionamento de certas coisas. Mas o senhor Pedro G., ainda que mais elaborado no seu ramo, também o tem, de outra maneira. Ele diz que consegue desactivar estes autoclismos, mantendo-os fixados na parede da casa de banho, usando moedas de vinte escudos das antigas, que ele conservou para isso, chegando mesmo a encontrar pessoas que lhas oferecem. «A moeda, juntamente com uma anilha, é que vai tapar o boiador» - as palavras são dele, e não as discuto. «Hoje podem também usar-se moedas de dois euros, mas claro, sai mais caro», dizia-me ele ainda.
Como pode ver-se, quando eu pensava que tinha esgotado a questão do mistério dos autoclismos inseridos na parede, surge esta nova achega. De facto as coisas são o que são, conforme as abordagens. Os olhares de Pedro são diferente e complementares dos olhares de Carlos. Mas, como dizia também um outro técnico de construção que veio ver a infiltração nesta casa, a água é tramada.
(Esta frase tinha já sido dita por outra pessoa que já mencionei nestes registos, um professor que se interessava por Harold Bloom e por problemas de canalização.) Mas uma coisa é dizer a água é tramada de ânimo leve - o que também não era o caso - , outra coisa é dizê-lo com um filosófico conhecimento de causa, num tom meditativo, reflectindo sobre um insondável mistério à volta da água. Este técnico de construção civil oscilava entre o sentido pragmático e o sentido filosófico, e parecia questionar a origem das coisas.
Image hosted by Photobucket.com
Verdadeiramente, o mistério reside mais na água do que no autoclismo, podendo considerar-se a água uma estrutura profunda e o autoclismo uma estrutura de superfície, para utilizar, com alguma utilidade, o uso da terminologia da gramática generativa de Chomsky. Não é que me interesse particularmente esta abordagem gramatical da língua, não. O que posso é utilizar parte dessa abordagem para explicar apenas um assunto, pontualmente, sem tomar como absoluto, exclusivamente, um modelo de compreensão da realidade.
Porque os modelos constroem uma realidade, são mapas. Eu não posso dizer «a realidade não é assim», mas posso dizer o «teu modelo de compreensão da realidade é diferente do meu.»
Sei bem que não estou a ser original. De resto seria demasiado fácil e tentador referir-me à água em geral como um conteúdo latente, e à água que sai da ruptura do cano danificado (uma forma de protestar...) como conteúdo manifesto. Mas o modelo freudiano, aqui, de pouco ou nada me serve. (v. autoclismos I,II, e III, Junho)

quarta-feira, junho 15, 2005

autoclismo II

As considerações sobre o funcionamento de um autoclismo estão, de certa forma, desactualizadas. Acontece que os autoclismos de bóia tendem a desaparecer, sendo substituídos por outros equipados com uma válvula movida por um êmbolo hidráulico. Isto é, a água é interiorizada num compartimento paralelepipédico, longitudinal, e a impulsão da própria água é que vai fechar o orifício de entrada ligado ao cano exterior de fornecimento de água. Assim lhe fica uma força interior ditada por mãos humanas que controlam o mecanismo, por defeito. Tal como a sístole e a diástole nos acompanham durante a vida, nos momentos de recolhimento e de exteriorização.

(continua num próximo post)

terça-feira, fevereiro 28, 2012

o funcionamento de certa indústria













«O ministro da Economia visita esta tarde a Oliveira & Irmão (OLI), principal produtor europeu de autoclismos, que emprega 350 pessoas e fechou 2011 com uma facturação de 44,2 milhões de euros, 72% dos quais nas exportações.»
Esta notícia permitiu que um ministro entrasse neste blog com tradição ligada a tudo o que é autoclismo e ao seu funcionamento. Este termo determinou o nome do blog.

domingo, outubro 19, 2008

é de citar, mesmo quebrando as regras internas do "funcionamento" deste blog

Atenção- sempre - às questões levantadas pelos autoclismos


(aqui ao lado, as fotos dos premiados: Parabéns!)



Um equipamento que reutiliza a água dos lavatórios nos autoclismos venceu o concurso de empreendedorismo da Universidade Nova de Lisboa, arrecadando um prémio de dois mil euros.
Os autores do projecto, Carlos Jorge Pacheco, Ana Filipa Magalhães, Maria Félix, José Pereira e Monika Kerkova, tiveram conhecimento da primeira edição do concurso E-Teams, sobre ideias de negócio inovadoras e decidiram participar, adaptando o sistema Aqus, da norte-americana WaterSaving Technologies, à realidade portuguesa.
A ideia premiada consiste na instalação de um reservatório de água por baixo dos lavatórios das casas de banho – com uma capacidade de 15 a 20 litros – que, por meio de uma bomba eléctrica – que consome cerca de cinquenta cêntimos de energia por ano – e de uma tubagem, bombeia o líquido para o receptor do autoclismo.
Este equipamento permite poupar nas residências particulares de "22 a 25 euros por ano", disse Carlos Pacheco. O grupo de jovens quer agora criar uma empresa para a instalação do equipamento. Lusa

sábado, junho 10, 2006

um ano de funcionamento













O funcionamento faz hoje um ano. Nasceu às apalpadelas, procurando ver como funcionava a blogosfera. Depois lá foi observando o funcionamento de certas coisas, desde a máquina de escrever, à criação artística, ou ao autoclismo, que estudou particularmente. Ainda hoje é muito visitado por isso mesmo. Neste momento anda um bocado cansado e desiludido com o funcionamento de certas coisas.
A partir daqui serão reduzidas as postagens, a não ser que haja algum mecanismo que atraia a atenção imediata. Para já fica um trevo de quatro folhas para dar sorte a todas as visitas, principalmente às supersticiosas. E também àqueles e aquelas que o têm estimulado com o seu comentário amigo. Não faço lista de links para não excluir ninguém. Eles e elas sabem quem são.
Aqui fica o abraço do
António

quarta-feira, abril 19, 2006

a energia da "Família Feliz"



Video de A. Ferra

Chamei a este conjunto de bonecos acrobáticos “Família Feliz”, nome baseado num prato chinês, não sei qual o número, com esta designação no menu. Realmente estes parecem constituir uma família feliz - o pai, a mãe e o miúdo, ali às voltas, sem se cansarem.
É um aparelho cujo funcionamento se deve à energia eléctrica que vem de duas pilhas de volt e meio colocadas no seu interior. Quer dizer, uma pessoa dá lanço com a mão e depois, não sei como, os manequinzinhos desatam a andar e nunca mais param.
Eu gostava é que isto fosse o verdadeiro motu continuo, isto é, que nele se gerasse um movimento perpétuo, um movimento que pudesse ser multiplicado infinitamente e resolvesse o problema da energia no planeta, através desta fonte única, a “Família Feliz”. Mas já sei que o resultado é apenas aparecerem pessoas a procurar no “google” informação sobre energia eléctrica e motu continuo, sem que fiquem a saber grande coisa, tal como aconteceu com o autoclismo, com a máquina de escrever, com o corta-unhas, com a captação de água, com a criação poética...

Nota: o entusiasmo e a velocidade atingida pelos excitadíssimos bonecos é tal, que a câmara tem dificuldade em registar o movimento com clareza, e fica assim um rodopiar desfocado.

segunda-feira, abril 10, 2006

Funcionamento de uma caixa de música





Propositadamente este vídeo não é sonorizado, porque não consigo o som de uma caixa de música. O ideal era ligar um cabo USB directamente à caixa de madeira, mas não dá. Colocar outra música era tirar-lhe a intimidade.
O mecanismo em si é tão simples como o de um autoclismo, o que é preciso é que funcione: um pequeno tambor movido a corda, com picos metálicos por onde passam umas pequenas linguetas de metal flexível (talvez latão?) que vibram, pois são pequeninos diapasões de frequências diferentes.
Mas aquilo que verdadeiramente vibra é o encanto das caixinhas de música

sexta-feira, janeiro 20, 2006

a avaria está sempre na torre

Image hosting by Photobucket
Gostava de saber como funciona um computador. Mas exactamente. Aparte os portáteis, ainda não perdi aquele impulso inconsciente de achar que a avaria está dentro do monitor, que o ecrã comanda tudo. Porque se vê.
Quantos são como eu e não confessam? Mas, afinal, é por causa das coisas que estão dentro de uma caixa chamada torre. Torre!
A propósito do funcionamento dos computadores, acabo de saber que "O telescópio" se encontra novamente em acção, depois de uma longa avaria, o que me alegra muito. Até porque "o funcionamento..." acaba de receber um prémio - um telescópio de chocolate - pelos motivos que este blogue aponta.
Image hosting by Photobucket
Uma das razões para a atribuição do referido prémio foi a investigação sobre autoclismos. A propósito, deixo aqui este autoclismo foleiro, com corrente de metal e pegadeira de plástico.
O segredo do seu funcionamento está no mecanismo inserido na caixa visível - depósito. Ao contrário de um computador.